Poemas e poesias

 

24
Set 08

Alegoria

 

Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,

e entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.

Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.

Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.

 

Poema/Poesia de Abgar Renault

publicado por Odracir às 23:47
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Os Sonhos

 

De repente acordo e vejo bem perto
De mim, colado quase ao meu, desnudo,
Também, cansado, inerte no veludo,
O corpo dela, sem censura, aberto
O coração, de sentimento incerto,
Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.
De tanto vê-la assim me desiludo
E me entristeço sempre que desperto.
Sem esperança de acordar com ela,
Eu fico preso ao meu amor constante
E paro, e penso e sinto, num instante,
Quando ela dorme, assim, imóvel, bela:
...Eu dos seus sonhos estou tão distante,
Que nem parece que estou junto dela.
 

Poema/Poesia de Abdias Sa

publicado por Odracir às 20:12
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Ode a Rasunda

 

Torres coroadas de brasas
correndo atrás de comboios,
a rubra boca rotunda
dois faróis falando às vagas,
e nas balizas celestes
pipilo de estranhas aves.

Na orla da noite ornada
de luzes senta-se o Rio,
e, na escuridão profunda,
em vermelho sobre o negro
datilografa seu augúrio:
chove amanhã em Rasunda.

A manhã já não divulga
o chilreio das gaivotas,
nem o marulho dos cascos
de potros de escamas alvas
se contorcendo feridos
pela chama que os inunda.

O boi deitado no pasto
espanta com a orelha bamba
irisada mosca imunda
que lhe perturba a audição.
Galápagos colam o ouvido
ao planalto ressoante.

Os que falam dentro d’água
anunciam pelo mundo:
crisântemos sobre crisântemos
nas cadeiras numeradas.
Pálidas bocas ansiosas
de baleias moribundas.

Bravo! The kings of soccer.
Sie freunten sich wie die kinder
Ah, c’est un merveilleux ballet.
Es tu hijo, madre España!
Per jovem, il brasile é nato
col vivo pallone al pie.

Os suecos correm loucos,
pateiam como corceis
sobre seu campo de colza.
Enrugam o rosto no esforço.
O Brasil baila em alvoroço.
Brinca com a bola nos pés.

Viena, Londres, Moscou,
Paris, Berlim e Belfast
dilatam as órbitas ôcas
dos vídeos. E em Estocolmo
a língua dos galhardetes
vibra por nós em Rasunda.

Para o céu sobem lianas
pelas sebes de cimento.
Mãos e bocas, olhos soltos
saltando pelas persianas,
e no lagar dos conventos
mistura de pranto e mosto.

Sirenes, sinos, girândolas.
Não se janta. Ninguém ama.
E os rios descem salobros
na larga face fecunda.
Pais e filhos dormem juntos
sobre os louros de Rasunda.
 

Poema de Abelardo Romero

publicado por Odracir às 15:40
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